Pular para o conteúdo principal

Saga São Silvestre, por Glaucio Coelho


Antes de mais nada, FELIZ 2012 para você que lê este humilde blog. Que seu ano seja com muitas passadas e conquistas para o corpo e para a mente. Àqueles, como eu, que não vivem da corrida, mas para a corrida, desejo paciência e fé para equilibrar os afazeres da vida com o tempo para curtir este nosso esporte.
Se você está aqui pela primeira vez, eu estou atravessando um período de recuperação de uma lesão, mas assunto sobre corrida é o que não falta para falarmos. Abaixo faço a transcrição da experiência do meu compadre Gláucio em uma aventura entitulada (por ele mesmo) Saga São Silvestre. A SSS é uma rica história de um corredor que debuta na prova. Espero que gostem da leitura. Eu gostei tanto que pedi para colocar no blog :-)

Da decisão à inscrição
Tudo começa depois de voltar de um treino matinal em novembro, endorfina nas alturas (sempre ela), e pilha posta pelo Marcus Peixoto (dono da assessoria da qual sou aluno), que passou como seria o esquema em que ele retiraria o kit e daria uma força até a largada, cheguei 200% pilhado no trabalho com a idéia de fazer a Corrida de São Silvestre. Liguei para a patroa e ela disse que não me acompanharia, mas que eu estava liberado para correr, desde que voltasse antes das doze derradeiras badaladas noturnas de 2011. Pronto! Foi suficiente para em uma fração mínima de tempo comprar as passagens e fazer a inscrição sem deixar a razão falar mais alta que a emoção.

E chega o último dia do ano...
Dezembro é mês de comemorações, muita bebida e muita comida. Se normalmente um corredor sempre acha que não está bem o suficiente para uma prova imagina em pleno dezembro, sem conhecer o percurso e longe de casa. Frio na barriga é pouco, mas vamos para o aeroporto. Fui de moto para garantir que na volta nenhum trânsito seria problema.
Mais certo do que o frio na barriga antes da largada é que membros da tribo dos corredores se reconhecem em qualquer lugar. Seja pela camisa de uma prova anterior, por uma sacola de kit, tênis surrado, ou qualquer outro sinal. No vôo de ida tinha pouca gente com este perfil e não dava para imaginar como seria a volta :-)
Chegando em São Paulo fui almoçar com o Marcus e o pessoal da equipe. Neste momento ele me passou o primeiro problema da organização da corrida: as camisas masculinas haviam acabado e eles prometeram enviar pelo correio em 2012!
Depois do almoço aproveitamos um pouco da área comum (banheiros) do hotel, onde o pessoal da equipe, que foi no dia anterior, se hospedou bem próximo à largada.
Seguindo para a largada passamos por todo tipo de "folião" tinha covers de Dilma, Tiririca, Falcão, Bozo, Homem-de-Ferro, Cornos, Chaves, Kiko, Chiquinhas, Batman, cangaceiros entre outros. Andamos até os guarda-volumes (caminhões e vans dos Correios), para descobri outra falha da organização: não haviam os costumeiros sacos em que lacramos nossos pertences. Era entregar para a organização nossa sacola e contar com a honestidade daquele pessoal contratado para trabalhar somente naquele dia. Graças a Deus tudo correu bem.
Nas duas horas em que ficamos aguardando a largada, pude reparar no pessoal que vai correr e no pessoal que está ali para assistir a corrida e o reveillon. Todos em perfeita harmonia. Eram pedidos de fotos com os “foliões", perguntas sobre como é correr, conversas falando da admiração e incentivos.
Não espere um povo sarado e bronzeado como nas corridas menos emblemáticas entre os corredores da São Silvestre. Boa parte aparenta estar ali para festejar a São Silvestre e não para correr a São Silvestre. Nada contra, aliás, é interessante saber como as coisas mudam de uma corrida para outra e perceber o poder da transmissão pela TV para atrair gente que normalmente não liga para praticar esportes, mas que irá aproveitar a São Silvestre como última chance para um feito esportivo em 2011.
Se eu pudesse resumir a São Silvestre a uma palavra seria SINERGIA, por que a soma da energia do povo que assiste, com a energia dos participantes, eleva a décima potência a energia positiva de todo mundo que está ao redor. É o desfile de carnaval da tribo que usa tênis.

Foi dada a largada...
A chuva caia e os alto-falantes anunciavam que foram vinte e cinco mil inscritos e que ano que vem eles pretendem chegar a trinta mil! Não consigo duvidar, porque fiquei quinze minutos aguardando minha vez para passar pelo pórtico de largada. Não digo largar, porque não dava para  correr.
Neste momento, o GPS do meu celular não acreditava que era para usar o Runkeeper na Avenida Paulista. Simplesmente não dava sinal por nada neste mundo. Resolvi então ligá-lo só para registrar o trajeto, a altimetria e tempo. Parti para o plano B: usar o Polar em conjunto com as marcações da prova para gerenciar minha cadência. Além disso, eu estava  com o parceiro de equipe José Renato, com seu Garmin funcionando, e com o mesmo objetivo: pace de 6 min por km.

O ritmo da prova
A São Silvestre começou na Av. Paulista em uma descida não muito acentuada e faz uns contornos ainda descendo por alguns trechos bem sinuosos e apertados. Digo apertados para a quantidade de gente que tem na prova, porque são três faixas de rolamento utilizadas normalmente, duas faixas nestes lugares mais afunilados e umas seis faixas em lugares mais amplos.
Todas as vezes que saímos de um trecho em curva e nos deparamos com uma reta grande, sejam descidas ou subidas, a sensação que tinha era de estar participando como figurante de uma daquelas guerras de O Senhor dos Anéis. Um exército de milhares de pessoas cobrindo toda a tua visão.
Seguimos buscando espaço entre as pessoas para mantermos nosso ritmo, aproveitando as descidas para fazer um pace abaixo de 6'/km, mas com muito cuidado para não acotovelar os mais lentos e nem sermos vítimas de tachões de asfalto ou qualquer outra saliência. Nisto se passaram bons 8 km com pace médio um pouco superior à meta.
Um pouco antes do km 9 senti que tava sobrando. Que dava para apertar o ritmo e voltar a buscar os 6'/km como média para a prova. Meu parceiro compreendeu e sinalizou para eu seguir em frente e assim comecei a forçar mais o ritmo entre as pessoas. Nesta hora começava uma seqüência de subidas pesadas culminando na tal Brigadeiro, longa e sempre para cima. Creio que foi mais de um 1,5K de esforço até chegar ao topo e ver as pessoas comemorando o fim das subidas. A frase que mais gostei de escutar foi "Venci o Brigadeiro e agora ele é soldadinho!!!". Perguntei a um cara com camisa da Portuguesa se agora ainda teríamos alguma subida e ele avisou que não. Outras pessoas também responderam o mesmo, sem que eu precisasse perguntar (pura SINERGIA!). Completando o momento, duas surpresas: saber que realmente era um descidão, o cenário ideal para dar tudo, e que a multidão era maior do que eu imaginava.
Em um ouvido falavam todos os alertas dados nas revistas especializadas sobre o risco de lesão neste trecho final. No outro o capetinha da endorfina. Adivinha quem falou mais alto no meu ouvido? Feitas umas curvas, entro numa reta em forte descida com mais de 2K, ao final as luzes da chegada, as pessoas ao redor comemorando ao avistarem o objetivo final de 2011! Daí para frente o pace ficou abaixo de 6'/km, mas tive algum cuidado para não atropelar os mais lentos ou sofrer com algum tachão ou falha de asfalto. Quem disse "o que vem de baixo não te atinge", não era corredor.

Gatoradecolé
Cada corrida tem suas peculiaridades e a São Silvestre não é nem de longe diferente. Pela primeira vez vi o Gatorade ser servido em sacolés. Solução muito legal, porque copos são complicados de manusear correndo e as embalagens padrão de Gatorade são lentas de abrir e provocam grande desperdício. O sacolé você fura com os dentes e aperta para bebê-lo. Quanto aos riscos de contaminação no manuseio são os mesmos dos copos de água. Ponto ruim era que o piso molhado e cheio de sacos plásticos (do sacolé) ficava escorregadio e nos trazia mais um elemento e tensão.
Nesta hora dos Gatorades ainda teve mais uma passagem engraçada, algumas guardinhas pediram para os corredores jogarem uns sacolés para elas. Os primeiros elas pegaram, os seguintes foram caindo e estourando no chão próximos delas e elas pedindo para acabar com o "bombardeio".

Rivalidade entre os times
Eu já sabia que paulista mistura torcida de time com a de escola de samba, mas não sabia como eram as suas reações durante uma corrida de rua. É impressionante como eles vão discutindo e até como o público atira copo vazio e tampinhas em corredores que estejam com camisa de time rival. Muito estranho.

A Chegada e Dispersão
É impressionante! Até a chegada foi tumultuada e com o espaço para pisar negociado mais pelos cotovelos do que pelas pernas. Para completar, uma chuva ainda mais forte lavava a alma de quem batalhou até os últimos metros em 2011. Pelas minhas contas, fiz no máximo 1h e 31minutos, o que vai me deixar muito próximo à meta estipulada, porém só terei certeza quando a Yescom resolver informar o resultado. Será tão difícil informar assim? Não é tudo informatizado? Bem... A São Silvestre é maior do que a Yescom.
Presente final da organização foi à área de dispersão: LAMAÇAL. O lugar tinha sinais de já ter tido grama, mas a chuva pesada somada a dezenas de milhares de pés sobre ele foi à combinação perfeita para nos inteirar com a lama depois de tanto asfalto.

E agora? Como chego em Congonhas?
Após pegar minha sacola, aguardei o José Renato chegar para pegar a dele. Perto das 19:30 fomos procurar um táxi para pegarmos o vôo das 21h. Agora uma outra falha da organização: não havia qualquer indicação de onde pegar transportes. Tivemos que ir perguntando para o pessoal que estava por lá até descobrirmos o local onde passavam táxis, o que não nos resolveu, porque nenhum taxista queria parar para um bando de malucos encharcados pela chuva. Já estava pensando em irmos correndo a pé para Congonhas, pois o taxista da ida havia me dito que eram menos de 5K dali, quando descobrimos um ponto de ônibus. Esta foi a melhor solução. Acho que comemorei a vinda do busu como criança comemora a chegada do trenó de Papai Noel! Uns 4 pontos depois, sem trânsito e por 3 reais, lá estávamos nós fazendo o check in e nos "banhando" como dava no Sanitário do Aeroporto.
No check in fui informado que o aeroporto já havia fechado e que acabara de ser reaberto (Amém!!!) e que o vôo sairia às 21:15. Beleza!

Vôo de carreira ou excursão de corredores?
Entrei no avião com o tênis e as meias que corri. Ou seja, pesados de água e lama, mas logo não me senti constrangido, pois praticamente todos no vôo eram corredores. Aliás, não vi ninguém que não passasse no meu detector de corredores, comprovado também pela "fragrância" no ar... podre, podre e podre rsrsrsrs.
Ao decolarmos sob forte chuva, o piloto avisou que enfrentaríamos bastante turbulência. Ele infelizmente acertou a previsão. Parecia uma montanha russa. As aeromoças tentaram começar um serviço de bordo, sob aplausos entusiasmados de todos, mas tiveram que abortar a missão por conta da turbulência. Aí vi uma coisa única. O pessoal da frente pediu para que elas passassem a caixinha do serviço de bordo para eles, que foram repassando de mãos em mãos para trás. Realmente a SINERGIA da São Silvestre nos acompanhou até o solo carioca, com direito a aplausos no pouso, coro de "Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo...", gritos de vitória. FANTÁSTICO!

Valeu a pena?
Depois de pegar minha moto, pagar 53 reais de estacionamento e partir debaixo de chuva pela Ponte Rio-Niterói, cheguei em casa às 22:30, onde minha família me aguardava para a ceia. Depois do banho e congratulações pela saga do dia, veio a pergunta que tenho mais respondido desde então: "Valeu a pena?" A resposta não é simples. Se analisar sem emoção, a data é ruim, o período para preparação é o pior do ano, o horário não é o que eu treino, o percurso é o mais feio pelo qual já corri (pronto falei!), mas por outro lado participar de corridas emblemáticas, e a São Silvestre é a mais famosa do Brasil sem sombras de dúvidas, é algo que levarei na memória para sempre. Valeu pela realização pessoal, por conhecer a rotina dos "tarados" que já fizeram e fazem isto todo ano, por descobrir como é correr com gente na rua torcendo mesmo sob chuva e te estendendo a mão, para simplesmente você bater e te passar energia positiva e você passar para ela (mais uma vez SINERGIA). Gostei muito. Não escondo que me sinto mais corredor por ter participado, mas não pretendo voltar a corrê-la. Mas dependendo da pilha...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Asics, Fundação do Câncer e o GEL-Noosa TRI 10

A Asics e a Fundação do Câncer chegam ao terceiro ano de uma campanha, onde 10% da receita da compra de produtos da coleção Accelerate Hope será doada para a Fundação do Câncer. Pesquisando sobre o modelo do tênis envolvido na campanha descobri que este foi feito para pronadores como eu!
A Edição especial da série GEL-Noosa TRI 10 com cores comemorativas da campanha Accelerate Hope, além do visual, a nova entressola Solyte e a placa Propulsion Trusstic garantem melhor amortecimento e resposta mais rápida durante as passadas. A altura do calcanhar reduzida oferece mais performance com um contato mais eficiente.
O que eu sei sobre este modelo?
Praticamente nada. Um verdadeiro tiro no escuro. O blogueiro Victor Caetano deixou seu feedback sobre o modelo no Corrida Urbana. Vale a leitura. O que me chamou atenção foi o menor peso em relação ao Kayano, referência para quem tem pisada pronada (na minha humilde opinião).
O tênis é muito difundido entre triatletas e o cardaço elástico foi feito ju…

André e seu novo tênis: Asics Kayano 20 NYC

Segundo o Garmin Connect foram 771 km corridos em 105 treinos. Foi assim que larguei o aço no meu antigo Asics Kayano 20. Gostei tanto dele que dei um jeito de encontrar seu irmão siamês, criado exclusivamente para homenagear a Maratona de Nova Iorque de 2013. Após o cancelamento da prova em 2012, o retorno de uma das mais tradicionais provas de rua precisava ser cheia de pompa. E a Asics não brincou em serviço. Além de muito bonito, o tênis tem tudo o que preciso para continuar evoluindo até outubro: estabilidade e conforto.
Muito já foi dito sobre a importância (ou não) do tênis na vida de um corredor. Eu sou do time que acredita que um bom tênis faz a diferença, tanto que hoje eu aceito usar qualquer tênis para correr desde que seja o Asics Kayano. Dentre minhas teorias eu acredito que ele seja o tênis mais eficaz para corredores de pisada pronada e que pesem mais de 90 kg. Como já mencionei em outros posts sobre tênis, já tentei utilizar outros modelos sem muito sucesso. Alguns aca…

Rebuild

Umas das coisas que mais admiro nesta vida é a possibilidade de mudar as coisas. De desenvolver, criar, crescer. Uma das coisas que mais tenho receio nesta vida é o imponderável, pois ele é a pitada de improvável em nossos planos, mas como diria Darwin, os organismos mais bem adaptados ao meio têm maiores chances de sobrevivência. E assim vou eu após praticamente cinco meses sem colocar o tênis.
Sair hoje cedo (não tão cedo quanto nos velhos tempos) para meu primeiro treino do ano foi muito bom. Não aconteceu nada de novo ou inesperado. Trote leve por quarenta minutos, coração com frequência alta e algumas dores de um corpo há muito abandonado.
O céu de outono azulado e sem nuvens era mesmo de outros anos. Os poucos corredores que acordam cedo eram praticamente os mesmos. O que mudou? Tudo, pois a cada passo ficamos mais fortes, mais resilientes e capazes de buscar o melhor para nós e para àqueles que nos cercam. É a busca incansável pelo equilíbrio corpo/mente para viver de uma única m…