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Quando as noites se tornam mais longas e escuras

Quando ele abrira os olhos percebera que ainda era noite. Algum horário na madrugada a dentro, devido ao profundo silêncio que o cercava. Com medo ele sentou sob seus joelhos e apoio as mãos na cama em busca de uma posição mais confortável. Ele se sentia fraco e o esforço para sequestrar o ar que necessitava para respirar o fazia transpirar. A sensação de asfixia era tamanha, que a melhor descrição é comparar ao esforço em uma prova de 5 Km, no máximo de suas forças, mas tentando respirar através de um canudinho de refrigerante. O sibilar de sua respiração não demorou muito a chamar a atenção de sua mãe, que buscou rapidamente o vaporizador para iniciar o tratamento. Ele não vira sua mãe colocar soro e remédio no recipiente. Tão pouco percebera os minutos que o dispositivo necessitou para começar a emanar o vapor mentolado.
O garoto com ajuda da mãe aproximou-se do feixe de vapor para tentar inaiá-lo. Passaram minutos, difícil dizer quantos, até que a respiração do garoto começara a se normalizar e o ar que tanto precisava entrava em seus pulmões agora sem dificuldades. Exausto, porém aliviado, ele deitou ao lado do dispositivo e adormecera quase como num desmaio. Sua mãe, mais tranqüila por ver o filho respirar com mais naturalidade, desligara o aparelho e retornara para cama. Mais uma entre muitas noites difíceis foi superada.
Ao ler a matéria do Lance Armstrong eu achei que precisava contar esta parte da minha vida. Não quero comparar um câncer com uma bronquite, mas o fato é que se trata de uma doença que (sem tratamento) pode ser incapacitante e em alguns casos levar ao óbito também. Quem tem bronquite já ouviu ao menos uma vez na vida de alguém que não poderia realizar atividades físicas, mas devido a perseverança de meus pais, eu desde pequeno fiz natação para tentar minimizar as crises, além de inúmeros tratamentos. 
Na idade adulta larguei as piscinas e optei pelo vôlei e pelo basquete, mas com o mesmo intuito, até que por questões de horário e logística experimentei a corrida em março de 2010 e estou aqui até hoje. Respirando.
Resolvi realizar este registro, pois as crises começam a se manifestar nesta época do ano e não foi desta vez que a tradição foi quebrada. Durante o ultimo final de semana uma crise veio leve, tanto que cheguei a "bombinha". A situação parecia sob controle, e seguindo a rotina, levantei para treinar na segunda. A missão era um treino forte de 30 minutos. Coloquei como meta correr pelo menos 5 Km, nada difícil na atual fase. Mas no aquecimento eu percebi que algo estava errado. O pulmão ainda sofria com a crise de bronquite. Andar não era o problema, mas eu queria era correr. Prometi não fazer uma loucura e me esforçar apenas para não caminhar. Assim fui e voltei pela orla de Niterói.
Apesar do leve desconforto consegui concluir o treino e para minha surpresa corri 5,2 Km nos 30 minutos. Eu parecia um maluco na rua ao final do treino. Rindo e distribuindo "bom dias" para quem passasse ao meu lado. 
Durante anos eu mal consegui andar durante as crises e na última segunda corri 5 Km!
Alguém ainda duvida do poder deste esporte?

O LADO NEGRO DA FORÇA
As colunas OXIGÊNIO, NO PIQUE e SENTA A BOTA fizeram um verdadeiro nó na minha cabeça às vésperas da Corrida da Ponte. A OXIGÊNIO sarcasticamente classificou os corredores em inúmeros grupos, dos quais a carapuça me serviu perfeitamente em dois: autodidata e disciplinado. O problema estava na primeira classificação, onde uma das características era se expor a lesões.
Justamente na reta final do ciclo para a Corrida da Ponte, uma dor na canela se manifestara. Coincidentemente, eu havia incluído os treinos complementares na escada para compensar as faltas na academia. Foi o jeito de reforçar a musculatura com uma agenda tão caótica. Faltando três semanas para a prova, comecei um tratamento com gelo e pomada após os treinos, que surtiu grande efeito. Porém, o problema ainda estava ali latente, mas controlado.
Em seguida veio a coluna NO PIQUE onde o Marcos falava sobre não cumprir com os tratamentos e antecipar o retorno aos treinos e provas. Ele alertava aos riscos de piorar uma lesão, se não déssemos ao corpo o tempo necessário para curar a lesão. Eu só pensava na dor da canela, até então controlável. A cereja do bolo foi ler o Iberê falando sobre a ineficiência do treino baseado na freqüência cardíaca. Pronto! O caos estava instalado. Comecei a achar que apesar de todo o esforço, eu ainda não estava preparado para enfrentar os 21K da Corrida da Ponte.
Pensei em um monte de coisas. A viagem na maionese chegou a tal ponto de associar minha situação a de Luke Skywalker, em STAR WARS: O Império Contra-atacar. Falo da clássica cena em que Luke, já sem uma das mãos e acoado na beira de um precipício, ainda ouve Darth Vader dizer: "Eu sou seu pai".
Meus queridos colunistas da Runners, meus ícones, minha referência, eu estava como Luke Skywalker resmungando: "Ben, por que você não me contou?", abraçado ao braço sem mão. Assim, como o moribundo herói, depois de cair abismo abaixo, encontrei segurança no lugar mais improvável: nos mais isolados pensamentos. 
Ali, no meio de mais um treino decidi aposentar o Asics Cumulus, que já havia rodado bons 600 Km. Lembrei que depois de tantos préstimos ele poderia ser o causador das dores na canela. Quanto aos treinos de escada, continuei a fazê-los, pois não haviam motivos para suspeitar que aquele exercício afetaria as canelas daquela forma. E também não dava para dizer que incluir as escadas no treino semanal era construir uma planilha com retalhos de outras muitas.
Paguei para ver e ganhei. Com a substituição do tênis, ao final da semana seguinte, eu já corria despreocupado e sem dores. E assim fui enfrentar os mais de 21 Km no último dia 20 de maio.
A serenidade Jedi foi fundamental neste momento de dúvida e perceber que meus mestres não estavam errados, mas apenas me alertaram a presença do lado negro da força.
Que a força esteja com vocês e boas passadas :-)

Comentários

  1. André,

    Texto muito bonito, provando que corrida é superação!

    Abraços,

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    1. Obrigado, meu amigo.

      Cada um sabe onde o calo aperta. Por isso eu acredito que a motivação nada mais é do que metas baseadas em decisões particulares. Cada um sabe o que é melhor pra si. E ninguém pode lutar pelo próximo, pois o crescimento ocorre da entrega ao desafio.

      Abraço e boas passadas :-)

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  2. André, quando criança eu tive bronquite e coqueluche, e a sensação com ambas as doenças - especialmente com a segunda - é de total impotência. Agradeço a Deus por ficar curado de ambas, mas um fator que me ajudou muito foi a prática da natação; jamais me esquecerei dos dias que acordava cedinho para ir nadar,e quando estava frio então, era um sacrifício (era só eu e a instrutora na aula,todos faltavam), sobretudo por eu ter na época entre 6 e 7 anos de idade. Entretanto, esse esporte me ajudou muito, e mesmo não praticando atualmente, considero o mais completo de todos, principalmente por ter me dado condições de praticar minhas corridas e pedaladas hoje em dia !

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    1. João,
      A natação fez parte da minha vida até os 23 anos. As aulas na escolinha foram substituídas por treinos em uma equipe não federada. A fase final foi treinando para maratona aquáticas.
      Eventualmente ainda sofro com as crises no inverno, mas ter incluído a corrida no meu cotidiano foi uma grata solução para quem não deve ficar sem atividade física para respirar bem.
      Boas passadas!

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