Pular para o conteúdo principal

Em busca da Paçoquita perdida

Eram cinco e cinco da manhã. O despertador apanhava pela segunda vez. Eu sabia que tinha poucos segundos pata levantar antes de apagar novamente. Foi respirar fundo e iniciar o ritual pré-treino. Tudo corria conforme a rotina até que lembrei do Carb Up e da Maltodextrina. Ou melhor, que ambos haviam acabado. Reforcei a banana amassada com mel e peguei um ovinho de chocolate de um saquinho de doces que meu filho trouxera de um aniversário.

Devia estar fazendo uns 16 graus quando passei pela portaria. Decidi ir em direção ao Fortaleza de Santa Cruz, pois passara a semana correndo no sentido do MAC. As primeiras passadas me lembraram do treino intervalado de ontem. Se existe algo que tento evitar é treinar dois dias seguidos, principalmente nesta fase de treinos onde os treinos tem sido pesados (para mim, claro). A missão era fazer o longão em intensidade moderada, mas os primeiros quilômetros provaram que seria um bocado difícil. Eu estava no limiar entre corrida leve e moderada. Não sei se a baixa temperatura tornou o ambiente mais confortável, mas a frequência cardíaca estava baixa abaixo de 75%. Tentei não me ligar nisso, pois com certeza na volta a situação seria outra. Daí voltei minha atenção para outro problema. Eu não tinha repositores energéticos e as padarias ainda estavam fechadas, apesar do relógio ter passado das seis da manhã. Algumas pessoas já se aglomeravam na porta das duas padarias que ultrapassei, possivelmente ansiosas pelo pão quentinho da manhã. Venci o túnel em direção a São Francisco e ganhei a orla. Em meio aos devaneios lembrei que em Jurujuba possivelmente eu encontraria uma padaria e então voltei minha concentração para as passadas. Estava tudo bem, mas dolorido. Sentia que a passada estava encurtada em detrimento da fadiga, mas nada que impedisse de continuar o longão naquele ritmo. Assim segui pela orla e enfrentei as subidas em direção a Jurujuba. Não vou dizer que foram fáceis, mas o ritmo que eu adotara evitou outros problemas de desgaste no trecho.
Eu já avistava os ônibus da linha 33 parados no final da via e percebi que a pequena padaria estava fechada e me preocupei. O pequeno ovinho de chocolate já era passado, pois o treino passava dos 50 minutos. De repente veio a luz. Os motoristas contavam com uma pequena barraquinha que lhes servia café, pão e alguns outros trecos. Então, para minha sorte, um pote transparente com uma etiqueta amarela parecia reluzir mais que qualquer outra coisa naquela pequena mesa: PAÇOQUITA. Lembrei do Sérgio, do seu blog, dele comendo a Paçoquita na Asics Golden Four 2011, da reportagem da Runners sobre alternativas para reposição de energia. Não pensei duas vezes. Dei bom dia para a simpática senhora e comprei duas Paçoquitas. Consumi de imediato uma e a outra guardei para daqui a 40 minutos.
A energia que eu precisava veio. A guloseima realmente cumpriu com seu papel e fui de boa até o final dos 18 quilômetros de longão, mais uns 10 minutos de caminhada para soltar. Foram boas duas horas e 15 minutos de corrida.


Apesar de agitado, o final de semana não compremeteu o descanso e acordei na boa para o primeiro treino da semana na segunda. Um intervalado com tiros curtos de 1 minuto e fortes. Decidi que iria fazê-los no máximo. Tinha que saber se eu tinha fôlego para 12 repetições.
Decidi seguir em direção a Praia de Icaraí. Não estava muito a fim de rodar nas proximidades de casa, decisão que se mostrou bem acertada, pois não precisei ficar fazendo curvas fechadas durante os tiros.
Os primeiros três tiros foram fáceis e a recuperação ocorrera sem problemas. A FC volta para abaixo de 65% com facilidade até então. Até então, eu disse. E o bicho começou a pegar. Eu corria para FC superar 90%, queria avaliar minha velocidade. Era o primeiro grande teste depois de tanto tempo treino pesado. Eu já estava retornando do Ingá, quando cheguei ao nono dos doze tiros. A FC já não baixava de 80% e o ácido lático já se fazia presente, mas faltava pouco para concluir a parte pesada do treino. Depois ainda viriam vinte minutos de corrida leve para me recuperar do tranco.
Confesso que fui ao meu limite físico. Limite para quem treina apenas 3 vezes por semana. Fiquei feliz com os tiros com pace na casa dos 4’30”. Um belo recomeço para um quarentão que até outro dia estava no estaleiro. 

A parte bela da semana acabou aqui. Depois de dias saindo tarde do trabalho, as coisas da casa cobraram seu quinhão. A terça e a quarta foram dias em que dormir cedo foi impossível. Questões inadiáveis consumiram o tempo como um fósforo depois de aceso. Quando eu me dava conta beirava 1 da manhã e só me restava suspirar e pensar “deixa para quinta”. Mesmo que quisesse eu não iria conseguir levantar cedo na quarta e o mesmo acabou acontecendo na quinta. Voltando para casa lembrei que o Carb Up e a Maltodextrina (fazedor de isotônico instantâneo; procure no Google) acabaram. Então corri para a loja (que não preciso fazer propaganda) e descobri que o Carb Up estava em falta. Tentei em outras duas filiais sem sucesso. Então o jeito foi trocar de produto. Resolvi testar o Ironman Gel, da New Millen. Foi o que encontrei de mais próximo do Carb Up. Corri para casa para preparar o isotônico e sair para correr a noite. Eu realmente tomei antipatia por correr a noite. É muito barulho. Muita poluição. Hoje percebi que a poluição dos veículos tem um gosto azedo. Eu estava com dificuldade para me ouvir. Mas como dizem, “se te derem um limão, faça uma limonada”.
O treino desta vez possuía tiros mais longos, o que me fez pensar em uma cadência mais sensata para não quebrar nas CATORZE repetições. Me programei para manter o pace de 5’30” nos tiros e apenas em 4 deles falhei. Em todos percebi que a frequência cardíaca ultrapassou os 90%, o que comprova o esforço.
Quando cheguei a 40 minutos de treino resolvi usar o Ironman Gel. Mais espesso, mas o gosto não era melhor ou pior que o do Carb Up. Um bom gole de água depois e segui bem, sem dor de barriga ou outros efeitos colaterais. Nota. Nunca deixe para descobri o que um gel pode fazer por sua barriga no dia da prova. Teste antes. Dia de prova não é dia de novidades. É dia para botar em prática ou que se treinou.

Confesso que fiquei satisfeito com o treino, mas olhando para o passado fiquei impressionado com o quanto eu estava rápido. Faltando 8 dias vejo que correrei a G4 para tentar uma prova sub-2h com muito sacrifício. Considero algo muito improvável bater meu recorde pessoal de 1 hora e 54 minutos. Mas tá valendo. Estou correndo e isso é o que importa.

Comentários

  1. muito legal, amigo! Estás pronto para a corrida! fico feliz que tenha gostado da ideia da paçoca. Eu confesso que a substituí pelo torrone, que é mais fácil de abrir sem se esfarelar e igualmente saboroso.
    Muita força de vontade a tua de ir trabalhar com esse volume de trabalho!
    abraço,
    Sergio
    corredorfeliz.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. A adversidade nos molda, meu amigo. Se fosse fácil, todos seriam felizes e bem sucedidos. Esta é a grande lição. Aprender com tudo que a vida nos oferece.

      Espero estar pronto para correr 10K abaixo de 50 minutos junto contigo ainda este ano. É um baita desafio (para mim).

      Boas passadas.

      Excluir
    2. Esqueci de comentar da Paçoca. O treco bom :-) O torrone não demora mais para dissolver não?

      Excluir

Postar um comentário

Obrigado por você passar por aqui.
Deixei sua opinião ou comentário sobre o tema. Uma boa conversa é sempre salutar.
Boas passadas!

Postagens mais visitadas deste blog

Do jeito que dá

A crise realmente chegou para todos. Da mesma forma que Lelo Apovian relata (na matéria A corrida não pode parar, publicada recentemente no site da Runners World Brasil) que a vida não está fácil para quem vive da corrida, não está fácil para nós que desafiamos o orçamento do mês para encaixar eventualmente acessórios e inscrições nas despesas mensais. É preciso se planejar e saber quanto é quando gastar. Nestas horas relembro de informações cortadas nestes anos de corrida. Uma que se aplica bem a este momento foi dita pelo nosso melhor maratonista (na minha humilde opinião) de todos os tempos. Vanderlei disse que se preparava para participar em alto nível de suas provas em média num ano. Particularmente algo sensato até para nós amadores, já que a maioria das planilhas treino (genética ou não), sugerem oito semanas de treino para um prova. Além de bom adequado, fisiologicamente dizendo, faz bem para o bolso nos dias atuais. Muitas organizações sabendo que as pessoas serão mais criteri…

Asics, Fundação do Câncer e o GEL-Noosa TRI 10

A Asics e a Fundação do Câncer chegam ao terceiro ano de uma campanha, onde 10% da receita da compra de produtos da coleção Accelerate Hope será doada para a Fundação do Câncer. Pesquisando sobre o modelo do tênis envolvido na campanha descobri que este foi feito para pronadores como eu!
A Edição especial da série GEL-Noosa TRI 10 com cores comemorativas da campanha Accelerate Hope, além do visual, a nova entressola Solyte e a placa Propulsion Trusstic garantem melhor amortecimento e resposta mais rápida durante as passadas. A altura do calcanhar reduzida oferece mais performance com um contato mais eficiente.
O que eu sei sobre este modelo?
Praticamente nada. Um verdadeiro tiro no escuro. O blogueiro Victor Caetano deixou seu feedback sobre o modelo no Corrida Urbana. Vale a leitura. O que me chamou atenção foi o menor peso em relação ao Kayano, referência para quem tem pisada pronada (na minha humilde opinião).
O tênis é muito difundido entre triatletas e o cardaço elástico foi feito ju…

Rebuild

Umas das coisas que mais admiro nesta vida é a possibilidade de mudar as coisas. De desenvolver, criar, crescer. Uma das coisas que mais tenho receio nesta vida é o imponderável, pois ele é a pitada de improvável em nossos planos, mas como diria Darwin, os organismos mais bem adaptados ao meio têm maiores chances de sobrevivência. E assim vou eu após praticamente cinco meses sem colocar o tênis.
Sair hoje cedo (não tão cedo quanto nos velhos tempos) para meu primeiro treino do ano foi muito bom. Não aconteceu nada de novo ou inesperado. Trote leve por quarenta minutos, coração com frequência alta e algumas dores de um corpo há muito abandonado.
O céu de outono azulado e sem nuvens era mesmo de outros anos. Os poucos corredores que acordam cedo eram praticamente os mesmos. O que mudou? Tudo, pois a cada passo ficamos mais fortes, mais resilientes e capazes de buscar o melhor para nós e para àqueles que nos cercam. É a busca incansável pelo equilíbrio corpo/mente para viver de uma única m…