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Maratona Cross Country de Búzios 2012 - Parte I

Às cinco e meia da manhã eu levantava para um improvisado desejum no quarto da pousada. Seguindo a tradição, nada de novidades na alimentação. Bananas ao mel e sanduíches de queijo e presunto. O suco de maracujá comprado acidentalmente teve sua utilidade, pois trouxe tranquilidade neste momento de mentalização pré-prova. Ainda mais pela única estratégia que fora possível elaborar: sobreviver as ladeiras do primeiro trecho da "mais bela e desafiadora maratona", que para mim seria apenas meia maratona, pois o Glaucio me convidou para formar uma dupla com ele. Mesmo assim, não havia nada de simples no desafio.
Já que toquei no nome do Glaucio, preciso falar da sua habilidade para organizar estas corridas de revezamento. Ele escolhera uma pousada a dez minutos da Rua das Pedras, o que nos conferia tranquilidade e tempo suficiente para chegarmos ao local da largada.
Chegamos cedo para avaliar o primeiro dos muitos desafios do dia. Falo das estreita, irregular, molhada e escorregadia Rua das Pedras. Foi bom andar no trecho, pois ele exigiria prudência muito em breve. Chegando ao pórtico de largada, resolvi fazer o último check up mental. Monitor cardíaco no braço e no peito, número na camisa, viseira e... faltou o chip da corrida! Sem pânico, voltamos da pousada em menos de dez minutos. Deu tempo inclusive de encontrar alguns amigos e tirar fotos para registrar o momento.
Olhando de fora, não tinha como não achar insólito, pois 1500 almas se preparavam para enfrentrar ladeiras, terra, lama, areia, mato e sabe-se lá o que mais. O transe se desfez quando percebi que o hino nacional estava sendo tocado. Faltava pouco agora.
Uma corneta anunciou o início da prova. Sem pressa segui o pelotão com toda a atenção no escorregadio piso. Apesar de não conferir muito mais segurança aos tornozelos, chegar aos paralelepípedos trouxe tranquilidade. Tranquilidade que acabou quando chegamos a primeira das muitas ladeiras do primeiro trecho. A angulação impressionava, pois eram trechos relativamente longos de subida e com paralelepípedos molhados. Calçadas, gramados e o cantinho da calçada feito de cimento eram as melhores alternativas a escorregadia pista de pedras.
O sobe e desce continuou intenso. Tão intenso que passei em frente a pousada que estava hospedado e nem percebi! Outra coisa que passou despercebida foi o monitor cardíaco, que alcançara a marca de 100% da FCM em algum momento. Sinceramente acho que em muitos momentos. O sobe desce parecia não ter fim e o esforço começava a pesar. Parei de contar as ladeiras e só queria encontrar um jeito de respirar. Decidi que a partir dali não tentaria mais correr nas ladeiras mais inclinadas, pois o ganho era muito pequeno para o esforço. Subir as ladeiras para o Parque da Cidade (onde se salta de asa delta aqui em Niterói) nunca parecera tão fácil.
Chegamos ao quilômetro cinco e um trecho mais plano nos permitiu correr um bocado, mas uma curva escondia um novo trecho de subida tão duro quanto o da primeira meia hora de prova. Praticamente todos caminhavam naquele momento. Alguns com uma passada mais vigorosa e outros com a mão na cintura, a procura de um apoio para a subida que não parecia ter fim. A deslumbrante paisagem as vezes distraia a mente, do corpo tomado pela fadiga. Depois de alcançar ao topo, tivemos que usar de muita prudência para enfrentar a decida. A inclinação impressionava. Acho até que um carro desceria escorregando aquela ladeira molhada. Como estava usando o Adidas Kanadia, eu procurava a todo momento gramados, terra batida, ou mesmo trechos com a vegetação baixa, pois a tração me conferia segurança e consequentemente mais velocidade. Aos poucos éramos um grupo se fazendo desta tática. Sofremos menos que os corredores que usavam os tênis tradicionais. 
Um casal vestindo azul claro, uma senhora com seus mais de sessenta anos (sinistra! Ela se inscreveu para correr os 42K), além do Carlinhos (a verdadeira lenda em Niterói) foram meus coelhos durante boa parte deste sobe e desce. Quando alcançamos mais última grande subida do primeiro trecho, percebi que ela era menos inclinada, porém mais extensa. De longe não dava para entender o motivo das pessoas pararem de correr repentinamente. Não precisei de muito tempo para ter minha dúvida esclarecida. Ao chegarmos ao topo (andando), fui presenteado com uma das vistas mais bonitas da minha vida. Era possível ver quase todo balneário. Guardarei aquela fração de segundos com muito carinho em minhas memórias.
O momento seguinte foi para enfrentar uma descida muito ingrime. Se você já desceu a serrinha de Itacoatiara para Itaipuaçú vai entender o que estou dizendo. Quando chegamos no "térreo" avistamos finalmente um trecho de asfalto. Teve gente comemorando até perceber que eram minguados metros até uma escadaria que nos jogava dentro da areia da Praia da Ferradura. Beirando o mar era possível aproveitar a areia dura e plana para correr com desenvoltura. Apesar da fadiga provocada pelas ladeiras, não dava para ignorar a oportunidade e a animação de praticar velocidade ao invés de força.
A uns 100 metros mais a frente, avistei a dupla mista de azul puxando o pelotão. Apertei o passo para me reunir a eles, ao Carlinhos e uma dupla feminina, que seguiam em bom ritmo. A intensidade que me impus naquele trecho me ajudou a passar bastante gente e com isso a motivação crescera. Foi quando me dei conta que estava alcançando o primeiro ponto de transição. Era possível ver de longe o pórtico e o corredor humano que a multidão formara, apesar do tempo frio e da chuva fina. Entre gritos de incentivo e palmas fui passando até ver surgir o Glaucio com uma garrafa d'agua gelada. Não reduzi o ritmo para pegar a garrafa, pois eu queria aproveitar aquela energia para enfrentar o segundo trecho. Acho que ele falou "bora! bora!"
Os últimos dez quilômetros desta aventura começaram com trecho em subida muito acentuado. Segundo o mapa, a última. A novidade é que a maior parte dele era em terra e próximo do cume, chamado de Alto Albatroz, literalmente dependeríamos de um cipó para subirmos a encosta. Nada demais, porém alterara a percepção de esforço, visto que fiquei praticamente 10 minutos parado aguardando minha vez para subir. Fiquei com receio da parada esfriar o corpo e complicar o resto da prova. Como nada podia ser feito, relaxei e esperei minha vez. 
A descida em meio a vegetação naquela apertada trilha ficara divertida. Uma brincadeira com muita velocidade. Talvez até demais para minha segurança. Passei o Carlinhos e alcancei finalmente o casal de azul. Seguimos descendo, em meio a vegetação, ruas e até escadarias entre as casas. Ao final da decida um trecho de rua nos jogou dentro da Praia de Geriba, que despertou antigas lembranças. Faziam doze anos desde o primeiro ano novo com minha esposa naquelas areias. A fachada de algumas casas se mostraram familiares e aquela distração do cansaço foi importante aquela altura. 
Passei meus coelhos particulares antes da praia terminar e comecei a perseguir um cara mais a frente. Fiz força para alcançá-lo e só consegui, pois ele literalmente parou no posto de hidratação para pegar água e isotônico em um posto que não havia ninguém da equipe de apoio. Aquilo me distraiu de tal forma que quase torci o pé nos paralelepípedos. Ele me entregou uma água, enquanto perguntava se eu estava bem. Quando vi o número de peito vermelho (que identificava quem iria correr todos os 42K) entendi sua tranquilidade. Para ele faltavam 23 quilômetros para acabar a aventura, mas o ritmo era idêntico ao meu.
Quando vi, já tínhamos vencido os metros de areia fofa da entrada da Praia de Tucuns. Tentar segui-lo foi importante aquela altura, pois a vontade de parar era grande. A água gelada que eu recebera, usei para molhar as coxas, que doíam em decorrência do esforço. Foi onde ganhei uma sobrevida na perseguição ao amigo maratonista. Mas inesperadamente meu guia parou e perguntei-lhe se estava tudo bem e ouvi que ele iria esperar uma amiga que ficara para trás. Continuei com a tática de tentar alcançar o corredor da frente até enxergar o pórtico no final da praia. Foi a centelha para o sprint final. Procurei o trecho mais duro da areia para sentar o pé.
Quando venci os últimos metros de areia fofa para alcançar o pórtico de transição, eu sabia que tinha feito o melhor na mais bela e desafiadora prova que participei. Não sobrava nada em mim, quando parei em frente ao Glaucio. Ele pegou a tornozeleira e sentou o pé. Tentei acompanhar (olhando!) sua corrida o máximo possível, enquanto recuperava o fôlego. Quando ele sumiu, olhei para a montanha quilômetros a frente e pude ver alguns incautos desbravando a trilha íngreme.

O pai dele pôs a mão em meu ombro me felicitando pela conquista. Gentilmente ele tirou algumas fotos para registrar o momento, enquanto observávamos a chegada de outros corredores. Alguns conhecidos aguardavam a chegada de seus parceiros para iniciarem suas provas. Depois de trocar algumas percepções, pegamos o carro para retornarmos ao hotel.
Correr esta prova foi a forma mais incrível e perfeita de descrever os eventos dos últimos meses. A dificuldade, as pressões, os imprevistos, os sapos engolidos, as noites mal dormidas, mas que com muita perseverança (ou teimosia) foi possível superar. A medalha que eu ainda iria ganhar foi guardada com muito carinho, pois ela simboliza conquistas pessoais de valor realmente grande. Mas esta é só a primeira metade da história. O Glaucio prometera escrever sobre os vinte um quilômetros finais desta maratona.
Continua...

Comentários

  1. Nunca fiz uma prova de revezamento, tenho vontade. Parabéns pela tua prova. Conseguir atingir seu objetivo, faz valer a pena cada esforço. Pelos relatos que li essa corrida não era fácil!! Um abraço

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    1. Verdade, Aline.
      Foi uma prova que exigiu muito. Poderia ser ainda mais complicada, caso fosse um dia de sol.
      As corridas de revezamento tem um lance especial. Saber que alguém conta com você remete a um comprometimento e dedicação ainda maiores.
      Obrigado pela visita. Espero que tenha gostado da leitura.
      André

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  2. Oi André!
    Com certeza a sensação de superação depois de um desafio desses deve ser fantástica.
    Belíssima prova.
    Parabéns por mais esta conquista.
    Abraços!

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    1. Obrigado, Alessandra.
      Como dizem por aí: "o que não mata, fortalece!"
      Cada prova corpo e mente saem ganhando. Cada um do seu jeito.
      Reparei que você há tempos não escrevia e descobri que nada tinha a ver com férias, ou falta de motivação.
      Desejo-te pronta recuperação, menina.
      Ah! Voltar aos poucos significa três vezes por semana e muita dedicação aos exercícios de alongamentos. Você não é a primeira nem a última com a síndrome piriforme que parou e voltará a correr.
      Boas (e prudentes) passadas!
      André

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  3. parabéns, André!

    esses paralelepípedos, hein, que desafio!
    nunca pensei de escorregar tanto!
    eu prefiro o sol àquela chuvinha fina que nos acompanhou o percurso todo:)

    prova linda!
    e esse primeiro trecho foi incrível!
    parabéns!

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    1. Como disse, o Adidas Kanadia fez a diferença. Mas eu parecia um doido correndo de um lado para outro da rua procurando, grama, cimento, ou terra. As travas ajudaram um bocado nas ladeiras.
      Só não se se concordo com você em relação ao sol. Sofri demais com as subidas. Tanto que ano que vem quero correr a outra metade. Quando passei a tornozeleira para o Glaucio (meu parceiro) fiquei olhando para aquele morro. Deu vontade de subir, apesar da exaustão kkk
      Obrigado pelo elogio. Espero que você gostei da segunda parte da aventura!
      Boas passadas!
      André

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  4. Parabéns André. Esta corrida foi mesmo uma aventura. Fui no site da Maratona e dei uma olhada nas fotos. Local impressionante.
    Thanks for reporting

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    1. Impressionante em todos os sentidos. A beleza do visual anestesiava corpo e mente. Quando vi, já tinha acabado. Como disse para a Elis, fiquei com gosto de quero mais.
      Que venha 2013!
      Obrigado pela visita.
      André

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  5. Caraca, seu relato me emocionou!

    Corridas de revezamento são especiais, não? Sem contar que o comprometimento deve ser muito maior, em respeito ao parceiro.

    Parabéns, André! Seus relatos são sempre fonte de inspiração para mim.

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    1. Oi, Renata.
      Quando a entrega física supera nossas barreiras mentais, acabamos dando ouvidos ao nosso instinto mais natural (como qualquer animal). O instinto coletivo prevalece e agir pelo próximo é agir por si próprio!
      Mais uma vez agradeço os elogios e sua presença neste humilde espaço de reflexão.
      Bom retorno ao mundo da corrida :-) Com certeza vamos nos esbarrar por Niterói.
      Boas passadas!
      André

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  6. Olá, André
    Este mês de novembro foi maluco para mim no trabalho e perdi esse seu relato :-( mas agora estou recuperando o atraso...
    Amigo, parabéns por esta grande conquista! O relato está primoroso. Parece ter sido um grande barato essa prova mesmo!
    grande abraço,
    Sergio
    corredorfeliz.blogspot.com

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    Respostas
    1. Um sempre muito obrigado pelos elogios e pela visita, meu amigo.
      Realmente foi uma corrida de aventura. Gostei tanto que já estou na espreita da K21 de Arraial do Cabo, que deve ocorrer em maio de 2013.
      Para o verão, apenas provas de 5K. Farei treinos específicos para tentar ganhar velocidade.
      Abraços.

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