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Maratona Cross Country de Búzios 2012 - Parte II, por Glaucio Coelho


Considero que esta foi a prova que abriu um novo universo dentro do mundo da corrida para mim. Viajar para correr em contato com a natureza é o meu barato atual.
Até ano passado eu nunca havia pensado em correr fora do asfalto, creio que nem sabia direito como isto funcionava, até que o amigo Lito Cordeiro, corredor com algumas décadas a mais de participação em corridas, me chamou para fazer dupla com ele, topei na hora.

Fizemos a inscrição e comecei a me empolgar com o desafio logístico que é aliar a corrida (esporte que adoro) e viajar com a família (prazer demais!).
A minha única experiência anterior em relação a isto havia sido uns meses antes, a Mini-Maratona de Paraty, que é prova de asfalto.

Voltando a Búzios 2011, fiz os primeiros 21 kms, já relatados com estilo e competência pelo André, a única diferença em relação a este ano é que em 2011 quem tentava nos torturar era o calor e este era a chuva e o vento.

Este ano o Lito está focado em outros projetos, logo, chamei o André para esta aventura, e a idéia casou bem, por que eu estava querendo fechar a prova para conhecer os outros 21 quilômetros que ainda não havia feito e ele interessado em correr mais cedo preocupado com a possibilidade de calorão de 2011 se repetir.



Treino com a equipe da Salomon

Faltando duas semanas para a prova a organização enviou um e-mail convidando para um treino no dia anterior a prova (sexta-feira) com a equipe de corredores de montanha da Salomon, composta de Neozelandeses, Americanos, Ingleses, Brasileiros e outros mais. Já comecei a sentir a diferença no porte da corrida e gostei da idéia.

Na sexta-feira, antecipei meus afazeres profissionais e parti na hora do almoço de moto para Búzios, no caminho um pouco de chuva e muito vento, cheguei a tempo de treinar com a equipe da Salomon. Os profissionais da corrida realmente estão em outro patamar e é bonito ver.

O treino começou na Estrada da Usina, em frente ao hotel onde os kits estavam sendo distribuídos, e rumamos num ritmo de 6’/Km pelos paralelepípedos em direção à Praia da Ferradura. Até aí tudo tranquilo, entramos na areia, ainda tudo normal, até que fomos para as pedras da costeira. Neste ponto o pessoal da Salomon mostrou a diferença. Enquanto nós, amadores, ficávamos medindo onde pisar e como transpor as pedras sem quebrar um pé ou uma perna, eles “voavam” de um lado para outro, simplesmente. Eles foram, voltaram e foram de novo enquanto eu babava no modo como corriam naquelas condições. Depois disto, uma subida em paralelepípedos, uma trilha beirando a lagoa, trechinho de asfalto e outros de paralelos até a volta ao hotel.



Entrega do Kit e a noite pré-corrida

Peguei o meu kit e do André, números de peito, tornozeleira com chip, dei uma olhada geral nos quiosques montados para o evento e ao final ainda tinha pouca gente retirando kits.

Às oito voltei uma vez mais ao hotel para assistir ao congresso técnico e tomei um susto com a quantidade de corredores. Durante o congresso ficou claro o motivo do meu susto, pois em 2011 foram 1.000 corredores inscritos e em 2012 passaram para 1.600 corredores. Estes números parecem pequenos quando comparado a eventos de asfalto, como Corrida das Estações (entre 10 e 15 mil corredores), São Silvestre (mais de 20 mil corredores), mas estamos falando de uma prova que tem alguns quilômetros com passagem para somente um atleta por vez.

Logo após terminar o congresso encontrei com meu parceiro André, sua família, e minha família, que havia acabado de chegar de carro, e fomos para um restaurante comer uma massinha. Encontramos com muitos amigos corredores, jantamos e fomos nos recolher.



Largada da maratona e apoio ao parceiro

Eram seis horas de sábado quando acordei para ir junto com André dar uma força na largada. O hotel não antecipou o café da manhã, logo, optei por levá-lo até a largada e após ele iniciar a corrida iria a uma padaria tomar um café da manhã.

Cumpri o planejado, tomando o café da manhã numa padaria com os amigos Moisés e a Adriana, que também iriam enfrentar a metade final da corrida. Depois, parti para o primeiro ponto de transição somente para apoiá-lo. A chuva caia, mas já imaginava esta possibilidade, logo levei minha barraca de praia de 2 metros de diâmetro para aguardá-lo em proteção. Foi bom para mim e para vários amigos que pegaram uma “carona” no meu abrigo.

André passou, entreguei uma garrafa de água gelada para ele e recolhi a garrafa quente que o acompanhou nos primeiros 10,5 km. Reparei que estava praticamente intacta, me toquei que não iria precisaria levar água extra no meu trecho, visto que a organização estava atendendo bem a demanda dos corredores. Ótimo! Menos peso para carregar. Como a garrafa que entreguei para ele era descartável ficaria por conta dele decidir também quanto a isto.

Voltei ao Hotel, peguei o piloto do carro de apoio (meu pai) e rumamos para o ponto de transição, onde eu assumiria a tornozeleira e iniciaria minha parte da maratona. Conforme aprendido na corrida de Bertioga-Maresias com o parceirão Moisés, envolvi o banco do carona com sacos de lixo, onde meu parceiro poderia sentar-se molhado e coberto de lama sem ter preocupação alguma com molhar ou sujar o carro. No ponto de transição encontrei os amigos da MP Assessoria, inclusive o Leandro Quintanilha, verdadeiro queniano albino.O cara já havia fechado seus 21 quilômetros e passado a missão de fechar a prova para o Moisés. Três semanas antes, na Bertioga-Maresias, Moisés, Leandro e eu havíamos formado um trio. Então não foi surpresa vê-lo completar tão rápido.

Novamente minha barraca de praia fez sucesso como abrigo para mim e para os amigos.



Meus 21 quilômetros

Eu estava completamente ansioso para partir, logo cada segundo parecia uma hora. Fico feliz por sentir isto, pois é um dos baratos que sentimos na corrida de revezamento. Quem já participou sabe do que estou falando.

Visualizei o André vindo correndo na areia da Praia de Tucuns e corri para me posicionar imediatamente no ponto de transição. Retirei a tornozeleira da perna dele, passei para a minha e rumei pelas dunas de Tucuns.

Foram somente 700 metros de dunas com areia fofa e começou a trilha, bem estreita subindo o Mirante das Emerências – Asa Delta. Praticamente sem espaço para ultrapassagens, estávamos todos em uma imensa fila indiana. Devido as experiências anteriores, eu já sabia que isto ocorreria e a tática que eu havia pensado seria posta em prática. Não forçar ultrapassagens nestes trechos e usá-los para repor o fôlego, disparando “desembestado” nos trechos largos. Dito e feito, em 800 metros de subida o Garmin apontou o ganho de altitude de 164 metros. Para ter uma idéia comparativa, a Torre do Shopping Rio Sul, prédio mais alto do Rio de Janeiro, tem 162 metros.
O lado bom de subir é que depois vem a descida... e que descida. Foram 4 quilômetros descendo, a maior parte por estrada de chão esburacada, tendo que atentar para o fato de ter buracos, valas, pedrinhas soltas, algumas raízes, curvas e outros corredores mais lentos. Me senti num vídeo game, ao melhor estilo do Mario Kart.

No km 5,5 da minha parte da prova, atravessamos a RJ-102, correndo uns metros por ela e adentramos na Fazendinha, onde está sendo preparada a pista de obstáculos da prova Hero Cross que ocorrerá em dezembro. Atravessamos um pasto em subida, até a altura de 77 metros no km 7,5. Sabia que não iria subir mais, por ter avistado um imenso reservatório de distribuição da Companhia de água. Acredite, ela sempre é posta nos pontos mais altos. Assim como a água, corredores descem “na pressão” e assim fui por dentro de uma trilha, descemos por um quilômetro e corremos uma estrada de chão plano de descampada. O vento forte e a chuva fizeram companhia até o ponto de transição 3. Neste descampado desisti de usar o boné, pois a impressão é que o vento estava tão forte que ele servia como um pára-quedas me atrapalhando. O tênis estava ensopado e o corpo já começava a apontar cansaço. Hora de sorver um gel de carboidrato e com a água dada no posto de transição.

Passar no posto de transição e escutar os gritos de incentivo da turma da MP e de vários outros amigos foi muito bom, só quem corre sabe o efeito desta energia positiva passada por quem nos assiste, VALE MUITO!!! OBRIGADO!!! Saindo da minha cabeça e voltando para os meus sofridos pés, corri mais 1,5 km pela estrada de chão, um pedacinho de calçamento e cheguei a areia da Praia Rasa. Quem conhece Búzios sabe que esta praia é um paraíso para prática de Kite-Surf, prancha com vela, por conta de seu vento. Não posso chamar de paraíso para os corredores, por que temos vento forte, areia fofa com inclinação acentuada no terreno. Haja joelho e quadril. Para minha “sorte”, devido a um acidente na adolescência,  tenho uma platina no pé esquerdo e como consequência um ligeiro encurtamento no comprimento total da perna esquerda. Justamente a que eu gostaria que fosse mais comprida nesta praia! Foram somente quatro quilômetros nestas condições até o final da Praia de Manguinhos. Neste trecho passei por duas tartarugas mortas na areia. Uma pena ver como a “invasão” humana em paraísos naturais causa problemas.

Cheguei a parte mais temida desta prova: a costeira. Trata-se de atravessar um trecho de praia, onde não tem faixa de areia. Tendo que transpor as pedras, algumas vezes indo de frente, outras de lado, ao melhor estilo siri, outras vezes saltando de uma pedra para outra. É um momento tenso, por que as ondas estão estourando a sua esquerda, muitas vezes cobrindo o lugar onde você precisa enxergar para pôr o pé, ou mesmo cobrindo seus pés. Em outras partes você se agarra aos muros de contenção feitos pelos moradores para as ondas não invadirem “seus” terrenos. Foram dois quilômetros de pura aventura e adrenalina, cumpridos de forma bastante prudente, onde voltei à tática de repor o fôlego neste tipo de trecho.

Finalmente cheguei a uma faixa de areia, Praia da Tartaruga, muito inclinada e fofa. Mas melhor do que o sufoco das pedras, sabia que teria somente 2,5 km antes da próxima trilha fechada e disparei com o coração tentando sair pela boca, muito acima dos 100% de FCM. Peguei a hidratação e engoli um outro gel de carboidrato, pois acabara a “molezinha”. Mas também já estava vindo aquela felicidade de saber que em aproximadamente três quilômetros eu estaria na Rua das Pedras comemorando a chegada.

A trilha que liga a Praia da Tartaruga a Orla paralela a Rua das Pedras é bem complicada. Começa com uma costeira, onde temos que escalar as pedras, depois descê-las. Momento em que trocamos movimentos repetitivos e curtos, por longos e lentos. O resultado é que na festa que as dores realizavam no meu corpo, chegou uma convidada especial: a câimbra! Mas neste momento, o pensamento focado na chegada é muito mais forte do que tudo. Cabeça a mil, distração e... uma belíssima pancada no joelho direito contra uma pedra.

Passada esta costeira começa a escalada de um morro, com direito a mãos e pernas trabalhando em conjunto. Na verdade é uma escada escavada no barro. Nova fila indiana de corredores e creio que a falta de oxigênio no cérebro afeta as pessoas de formas diferentes. O “amigo” que vinha logo atrás resolveu me ajudar, mesmo sem ter sido solicitada ajuda. Fui empurrado para cima, no exato momento em que eu levantava a perna esquerda. Minha força, mais o impulso dado pelo “abençoado” levaram o meu joelho esquerdo contra uma pedra.

Atingido o topo, inicia-se uma trilha em descida suave por mata fechada. Tive que me abaixar bastante e ainda assim era galho batendo na cara, nos braços e nas pernas. Foram dois quilômetros de corrida intensa com obstáculos. Parecia filme de exército. De repente areia!

Na corrida pela areia foram dois quilômetros de ansiedade pura, vendo a entradinha que me levaria a tão sonhada Rua das Pedras.


CHEGUEI!!!

Tudo que você está sentindo é trocado por dois sentimentos: REALIZAÇÃO e FELICIDADE. Ver sua dupla, sua família e seus amigos é muito bom. Não tem preço.

A corrida de revezamento aumenta muito o meu comprometimento, por que corro o meu melhor para não decepcionar a minha dupla, assim como foi com o Lito Cordeiro, no ano anterior, não importa o tempo e sim a certeza de que você deu 110% do seu máximo para honrar o amigo que topou ir até Búzios e enfrentar este desafio.

Comentários

  1. Rasgados agradecimentos ao amigo Glaucio Coelho por ter me convidado para participar desta grande aventura e por compartilhar sua história neste humilde blog. Boas passadas, meu camarada!

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  2. êta, deu muita saudade lendo o relato do Gláucio!
    saudade até da areia fofa inclinada com chuva e vento na cara:)
    saudade da costeira, e dos galhos da trilha batendo no rosto!
    faz uma semana... nossa, que sensação boa no domingo... pernas cansadas e alma em êxtase! uma sensação boa de conquista!

    parabéns, André e Gláucio!
    essa prova é incrível, e vivê-la em equipe ou solo é certamente uma emoção inesquecível!

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    Respostas
    1. Verdade, Elis.
      Agora é esperar pelo XTERRA e sei lá mais o que vier pela frente no mesmo estilo.

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  3. Outro relato que me emocionou, tanto quanto o do André!

    Parabéns por mais essa conquista.

    Que sensação maravilhosa deve ter sido!!!

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